ora-pro-nobis
"pereskia aculeata mill"
GASTRONOMIA
MISTURADO A VÁRIOS TIPOS DE CARNE, "VEGETAL DOS POBRES"
CONQUISTA O PALADAR DOS MINEIROS E ATRAI CENTENAS DE PESSOAS A FESTIVAL
EM SABARÁ.
O VERSATIL ORA-PRO-NOBIS.
MARLYANA TAVARES.
Ora-pro-nobis.
Em bom latim,orai por nós. A expressão acabou dando
nome ao vegetal também chamado "carne do pobre",
por seu alto teor de proteína e a planta , há sete
anos, inspira a realização de um festival que atrai
centenas de turistas a Sabará, a 25 quilômetros de
Belo Horizonte, na região metropolitana, mais precisamente
no bairro Pompeu. Neste fim de semana, a iguaria estará sendo
vendida, de varias formas, na sétima edição
do evento. O prato, típico da cidade e figurinha fácil
nas mesas de municípios históricos mineiros, pode
ser preparado de vários jeitos. Com lingüiça
costelinha, frango, carne moída, e até marreco e bacalhau.
O festival acontece na quadra poliesportiva do Pompeu (r. José
Vaz Pedrosa), regado, claro a muita "branquinha", outro
produto da terra.
Dizem
que a planta passou a se chamar assim porque existia no quintal
de um padre. Enquanto ele rezava a missa e dizia o seu ora-pro-nobis,
os catadores faziam a festa. Quem conta a historia é José
dos Santos Pinto, de 73 anos, um dos plantadores e dono de um alambique
no bairro Pompeu, onde aliás, se concentra a tradição,
os cultivos da planta e restaurantes. Como o Moinho d'Água
e o Alambique Armazém JP, na rua Jose Vaz Pedrosa.
Dona
Maria Torres da Fonseca, de 73, mãe do proprietário
do Moinho d' Água e o Alambique Armazém JP, na rua
Jose Vaz Pedrosa., nem se lembra quando começou a fazer e
comer o ora-pro-nobis, tão entranhado está o costume
em sua família. "O mais comum é comer com arroz,
feijão e angu", diz. E é outra Maria, a Maria
Madalena Pinto, mãe da proprietária do Alambique Armazém
JP, quem ensina os macetes de fazer o ora-pro-nobis: "Pega
as folhas, corta como couve, e afoga. O segredo é ter ao
lado uma água fervente. Assim que estiver afogado, jogue
a água fervendo. É assim que se tira a baba. Depois,
é só misturar a carne e deixar ferver mais um pouco".
José,
Maria e Maria Madalena estarão nas barraquinhas do festival
oferecendo seus pratos de ora-pro-nobis com temperos especiais.
Mas o principal é o gostinho de tradição, que
ao longo do tempo, quase foi sepultada. "A planta não
depende de grandes tratos culturais e era bastante usada para proteger
cercas. Ela foi marginalizada e quase esquecida", diz, sem
saber direito explicar porque o costume quase se perdeu.
SALADA DE FLORES
Uma novidade que não será mostrada no festival vem
de longe, em São Paulo, desenvolvida e testada pelo pesquisador
Nikolaos Argyrios Mitsiotis. O pesquisador, de origem grega, tenta
descobrir os segredos do ora-pro-nobis há três anos.
Em meio às suas andanças e observações
sobre as propriedades do ora-pro-nobis aplicadas à apicultura,
acabou criando um prato novo, desta vez com as flores da planta,
que ostenta o nome cientifico de Pereskia aculeata.
Segundo Mitisiotis, as saladas de flores podem ser de dois valores
nutritivos. Se colhidas pela manhã, bem cedo, antes de serem
visitadas pelos insetos polinizadores, a salada guardará
mais proteínas. Afinal, em cada flor existe, aproximadamente,
de 15 a 20 miligramas de néctar.Se as flores forem coletadas
mais tarde, depois de exploradas pelos insetos, a salada será
saborosa, mas de valor nutritivo menor. O pólen é
quase proteína pura, e, não sendo coletado, confere
um sabor, levemente adocicado, o que é agradável ao
paladar. "Tempera-se com limão ou vinagre de maçã.
Eu, pessoalmente, prefiro temperá-la com limão cravo
e, junto, uso algumas folhas de rúcula, para dar um sabor
picante", diz.
As saladas também podem ser feitas com os botões das
flores, ensina o pesquisador. Neste caso, colhe-se os botões
até três dias antes de se abrirem em flores, mergulha-se
na água fervente, durante, no máximo 30 segundos.
Dá até para fazer conservas de botões de ora-pro-nobis,
garante Mitsiotis. Um detalhe: é preciso cortar os ovários
espinhentos dos botões, antes de os refogar, coar temperar
e servir. Estes podem ser armazenados na geladeira por dias. Bem-humorado,
o pesquisador conta que ainda não batizou sua iguaria. Pensa
em chamá-la salada do apicultor, antossalada, antossalada
grega, ou antossalada da elite. Quem quiser dar uma opinião
e até mesmo saber mais detalhes sobre esta diferente forma
de usar o ora-pro-nobis, pode escrever para nikeeper@ig.com.br
Fonte: O
Estado de Mina,s Terça-feira,
29 de abril de 2003, página 8
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